Depois de seis décadas de trabalho missionário
ininterrupto, a tradução completa da Bíblia para o idioma Ngalik foi
finalmente concluída. Falado por comunidades indígenas na província de Papua,
na Indonésia, o idioma agora conta com as Escrituras completas em sua língua
materna — um marco histórico para o discipulado cristão na região.
A cerimônia de dedicação da Bíblia em Ngalik ocorreu
em fevereiro, reunindo líderes cristãos, missionários e membros da
etnia local. O momento simbolizou não apenas a conclusão de um projeto
linguístico, mas também a perseverança da fé cristã em um dos
contextos mais desafiadores do mundo.
Uma missão que atravessou gerações
O projeto teve início em 1967, quando o casal
de missionários Ed e Shirley Maxey, ligados à Aliança
Cristã e Missionária, começou a tradução do Novo Testamento.
Após 25 anos de trabalho, o texto foi concluído em 1992, com o
apoio decisivo de dois jovens da comunidade local, Amos e Enos, que
se tornaram peças-chave no processo.
Anos depois, o legado missionário foi assumido pela
geração seguinte. Buzz Maxey, filho do casal, e sua esposa Myrna,
deram continuidade à missão ao lado de Amos e Enos, culminando na tradução
completa do Antigo Testamento, finalizada em 2023.
“A fidelidade de Deus se manifestou por meio da dedicação
de muitos irmãos locais, que trabalharam com coragem para que a Palavra
chegasse ao seu povo”, declarou Buzz Maxey à Aliança Cristã e Missionária.
Bíblia, fé e resistência em meio ao conflito
A entrega da Bíblia completa em Ngalik ocorre em um contexto
de intensa instabilidade política, social e religiosa. Desde 2018,
a província de Papua tem sido marcada por conflitos armados entre grupos
separatistas e forças de segurança da Indonésia. Relatórios de organizações de
direitos humanos denunciam abusos cometidos durante operações militares,
incluindo violações à liberdade religiosa.
Embora a Indonésia seja o país com a maior
população muçulmana do mundo, Papua apresenta uma realidade distinta: cerca
de 70% da população local se identifica como cristã. No entanto,
nas últimas décadas, líderes regionais relatam o avanço de movimentos
de islamização, acompanhados por políticas de migração incentivada que
buscam alterar a composição demográfica da região.
Organizações locais também apontam casos de conversões
forçadas, restrições à atuação de igrejas cristãs e intimidações contra
comunidades de fé em áreas de conflito. Ainda assim, o cristianismo permanece
vivo entre os povos indígenas papuas, sustentado por iniciativas de
discipulado, educação bíblica e fortalecimento comunitário.
Um símbolo de esperança para os povos indígenas
Falado por comunidades da etnia Ngalik, na
região central de Papua, o idioma agora se torna um instrumento de acesso
direto à Palavra de Deus. Para líderes locais, a conclusão da tradução
representa mais do que um avanço missionário: é um ato de resistência
espiritual, identidade cultural e esperança em meio à perseguição.
Segundo dados recentes da Wycliffe Global
Alliance, mais de 1.500 idiomas em todo o mundo ainda não possuem a
Bíblia completa traduzida. A organização afirma que sua meta atual é
acelerar projetos em regiões de difícil acesso ou onde há perseguição
religiosa, reconhecendo a urgência de levar as Escrituras a povos
historicamente marginalizados.
A Bíblia em Ngalik nasce, assim, como um testemunho vivo
de que a Palavra de Deus transcende gerações, fronteiras e conflitos,
permanecendo firme mesmo onde a fé é provada pelo sofrimento.
Lehandro Souza .
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