Moisés: Fé que atravessa o deserto Pr. Lehandro Souza

Depois de apresentar homens e mulheres que viveram pela fé, o autor de Hebreus nos conduz a um dos maiores líderes da história das Escrituras. Se Abraão nos ensina a responder ao chamado de Deus, Moisés nos ensina a permanecer fiel durante o caminho. Sua história não é apenas sobre milagres extraordinários, mas sobre uma fé capaz de atravessar o deserto sem perder de vista a promessa.

"Pela fé, Moisés, sendo já homem feito, recusou ser chamado filho da filha de Faraó, preferindo ser maltratado juntamente com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do pecado. Pela fé, deixou o Egito... Pela fé, celebrou a Páscoa... Pela fé, atravessaram o Mar Vermelho."
(Hebreus 11:24-29)

Ao observarmos atentamente esse texto, percebemos que a vida de Moisés é construída sobre uma sequência de escolhas. A fé nunca foi apenas aquilo em que Moisés acreditava. A fé era a maneira como ele decidia viver. Isso revela uma verdade profunda:

A verdadeira fé não apenas nos tira do Egito; ela nos sustenta até a Terra Prometida. Moisés nasceu em um dos períodos mais sombrios da história de Israel. O povo hebreu vivia escravizado havia aproximadamente quatrocentos anos (Êxodo 12:40-41). O decreto de Faraó determinava que todos os meninos hebreus fossem lançados ao rio Nilo (Êxodo 1:22). Humanamente falando, não havia esperança. Mas quando a opressão parecia alcançar seu auge, Deus já preparava o libertador. Aquilo que o inimigo pretendia destruir tornou-se exatamente o instrumento que Deus usaria para libertar Seu povo.

Desde o nascimento, Moisés nos ensina que Deus continua escrevendo Sua história mesmo quando o cenário parece completamente desfavorável. Existe, porém, um detalhe extraordinário. Moisés foi criado dentro do palácio de Faraó. Recebeu a melhor educação do Egito. Aprendeu ciência, estratégia militar, administração e toda a sabedoria da maior potência mundial da época (Atos 7:22).

Humanamente, ele tinha tudo para permanecer confortável. Prestígio. Segurança. Influência. Riquezas. Mas Hebreus afirma algo surpreendente:

"Recusou ser chamado filho da filha de Faraó."

A fé começa quando somos capazes de abrir mão daquilo que é temporário para abraçar aquilo que é eterno. Moisés compreendeu que identidade vale mais do que posição. Ele preferiu sofrer com o povo de Deus do que viver distante do propósito de Deus. Vivemos em uma geração que mede sucesso pelo conforto. O Reino de Deus mede sucesso pela obediência. Há momentos em que permanecer no palácio significa perder o propósito.Depois dessa escolha, Moisés passou pelo deserto de Midiã.

Durante quarenta anos, aquele homem que fora preparado para governar uma nação aprendeu a cuidar de ovelhas. Poderia parecer desperdício. Mas Deus nunca desperdiça processos. O deserto não era um atraso. Era uma escola No Egito, Moisés aprendeu a governar homens. No deserto, aprendeu a depender de Deus. Enquanto o Egito formou um príncipe, o deserto formou um servo. E Deus sempre confia grandes responsabilidades àqueles cujo caráter foi moldado antes de receber autoridade. Foi exatamente naquele ambiente silencioso que Deus apareceu na sarça ardente (Êxodo 3). Isso revela outro princípio extraordinário: Muitas vezes Deus fala mais claramente no deserto do que nos palácios. O deserto elimina distrações. Ali permanecem apenas Deus e o coração.

Quando Deus chamou Moisés, ele apresentou inúmeras limitações. "Quem sou eu?" "E se não acreditarem em mim?" "Não sei falar." Cada desculpa revelava suas inseguranças.  Cada resposta de Deus revelava Sua suficiência. O chamado nunca depende da capacidade humana. Depende da presença divina. Por isso Deus respondeu:

"Certamente Eu serei contigo." (Êxodo 3:12)

Essa continua sendo a maior promessa que alguém pode receber. Não é que Deus dará força. É que Ele estará presente. Depois vieram as dez pragas. Cada uma delas confrontava diretamente uma divindade adorada pelos egípcios. O Nilo era considerado sagrado. O sol era adorado como Rá. Animais eram venerados como deuses. Ao enviar as pragas, Deus não estava apenas julgando Faraó. Estava demonstrando que somente Ele é Senhor sobre toda a criação. A libertação de Israel foi também uma declaração da soberania absoluta de Deus. Então chegou o Mar Vermelho.

À frente, o mar. Atrás, o exército mais poderoso do mundo. Ao redor, um povo desesperado. A lógica dizia que tudo havia terminado. Mas a fé enxerga possibilidades onde os olhos naturais veem apenas impossibilidades. Moisés declarou:

"O Senhor pelejará por vós, e vós vos calareis." (Êxodo 14:14)

Pouco depois, Deus ordenou:

"Por que clamas a mim? Dize ao povo que marche." (Êxodo 14:15)

Que paradoxo extraordinário. O mar ainda não havia se aberto. Mesmo assim, Deus ordenou que o povo avançasse. Porque a fé não espera o caminho aparecer. Ela começa a caminhar confiando que Deus abrirá o caminho. Foi quando Moisés estendeu sua vara. O mar se abriu. Israel atravessou em terra seca. Aquilo que representava um obstáculo tornou-se estrada. Aquilo que parecia sentença de morte transformou-se em testemunho de livramento. Mas a maior prova da fé de Moisés não aconteceu no Mar Vermelho. Aconteceu depois dele. É relativamente fácil confiar em Deus quando vemos milagres extraordinários. O verdadeiro desafio é permanecer fiel durante quarenta anos de deserto. Todos os dias havia murmuração. Todos os dias havia dificuldades. Faltava água. Faltava alimento. O povo reclamava.

Mesmo assim, Deus fazia descer o maná todas as manhãs. Isso revela um princípio poderoso:

A fidelidade de Deus não depende da estabilidade do ambiente. Ela permanece constante mesmo quando atravessamos os desertos mais difíceis. Moisés também compreendeu algo que poucos líderes aprendem. Conduzir pessoas exige mais do que autoridade. Exige intercessão. Diversas vezes Deus anunciou juízo contra Israel. E diversas vezes Moisés colocou-se entre Deus e o povo, clamando por misericórdia (Êxodo 32). Ele preferiu carregar o peso da intercessão do que assistir à destruição daqueles que liderava Isso revela o coração de um verdadeiro pastor.

Quem ama pessoas não apenas as conduz. Também ora por elas. Ao final de sua jornada, Moisés contemplou a Terra Prometida do alto do monte Nebo (Deuteronômio 34). Ele não entrou nela. Humanamente, alguns poderiam chamar isso de fracasso. Mas Deus jamais mede uma vida apenas pelos lugares onde ela chegou. Ele mede pela fidelidade demonstrada durante o caminho.  Moisés não foi o homem que apenas atravessou o deserto. Foi o homem que ensinou uma geração inteira a confiar em Deus enquanto atravessava o deserto. Talvez esse seja seu maior legado. Nem todos verão o cumprimento completo daquilo que começaram. Mas todo homem e toda mulher de fé deixam um caminho preparado para que outros continuem a obra de Deus. A história de Moisés nos confronta com uma pergunta inevitável:

Estamos apenas pedindo que Deus retire os desertos da nossa vida, ou estamos permitindo que Ele use o deserto para transformar o nosso caráter? Porque Deus não forma apenas vencedores. Ele forma adoradores. Não forma apenas líderes.

Forma servos. Não procura apenas pessoas capazes de começar uma caminhada. Procura pessoas dispostas a permanecer fiéis até o fim. Como costumo dizer:

"A fé não elimina o deserto; ela nos dá força para atravessá-lo sem perder a direção da promessa." — Lehandro Souza

A galeria da fé continua crescendo diante dos nossos olhos. Abel nos ensinou a oferecer. Enoque nos ensinou a andar com Deus. Noé nos ensinou a obedecer. Abraão nos ensinou a responder ao chamado. Isaque nos ensinou a preservar a promessa. E Moisés nos ensina que a verdadeira fé continua caminhando, mesmo quando o deserto parece interminável. Porque quem anda pela fé pode atravessar desertos, enfrentar mares e suportar processos. Mas jamais perde de vista a promessa que Deus colocou diante de si.



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